terça-feira, 29 de outubro de 2019

Os brasileiros vão às ruas?


Os brasileiros vão às ruas?

Nas últimas semanas estamos vendo manifestações populares em vários países da América Latina. Pessoas foram às ruas no Chile, Equador, Peru, Venezuela, Honduras e Haiti e a semelhança que existe entre tais manifestações é o protesto contra sistemas políticos e econômicos que não representam seus interesses, por exemplo as políticas de austeridade que também influenciaram nas eleições da Argentina e do Uruguai. A cada dia fica mais difícil convencer as pessoas de que elas precisam se sacrificar cada vez mais para beneficiar uma parcela muito pequena da classe dominante, que na maior parte reside nos países mais ricos.

E no Brasil? Eu não conheço país onde a população tenha perdido mais diretos desde o golpe parlamentar de 2016. Veio uma reforma trabalhista com muitas perdas de direitos, principalmente para os trabalhadores de baixa renda, uma reforma da previdência que vai dificultar a aposentadoria de muitos trabalhadores formais e quase impossibilitar a aposentadoria da maioria dos trabalhadores informais, redução do salário mínimo, diminuição nos investimentos em saúde, cortes no orçamento da educação após já ter sido aprovado no ano anterior, entre outras perdas.

Então por que os brasileiros ainda não estão nas ruas? Acredito que algumas pessoas que foram às ruas de 2013 a 2016 ainda acreditam que suas demandas serão atendidas, não perceberam que a situação piorou. Essas pessoas foram capturadas pelo discurso da extrema-direita de combate a violência, fim da corrupção com consequente melhoria na qualidade de vida e geração de empregos através da adoção de políticas liberais. Não houve políticas de combate a violência, o que se vê na verdade é aumento de violência do governo contra os mais pobres, negros e indígenas, não houve aumento no número de empregos e as pessoas estão vendo pelos exemplos da América Latina que políticas liberais e de austeridade não são a solução e nem precisa falar em corrupção, pois esse deve ter estar sendo o governo mais corrupto da história do Brasil, o que não é pouco.

Acredito que uma hora vai surgir a gota d’água, que a população indignada vai às ruas espontaneamente como em 2013. Os partidos de esquerda e demais que são oposição ao governo, ou não estão conseguindo organizar protestos ou não estão querendo, talvez como estratégia de adiar protestos pensando nas eleições de governadores e vereadores no ano que vem. Caso seja isso, acho muito perigoso, vamos mais uma tez o risco de populistas apoiados pela mídia e grandes empresários assumirem o poder e continuar governando contra a população mais carente. Nós temos que pelo menos mostrar a essa parcela da população que a direita nunca estará ao lado dela.

Neste ano o povo já mostrou que tem vontade e capacidade de se organizar. As manifestações em defesa da educação foram enormes e abalaram o governo. Todos têm medo de protestos. Vejam como Bolsonaro sempre recua quando percebe que uma medida foi muito impopular. Vejam como a Lava Jato só conseguia tomar uma decisão baseada no apoio popular, daí o envolvimento da grande mídia e dos vazamentos de depoimentos de delação premiada premeditados.


Se conseguirmos unir as demandas populares das classes mais exploradas e levar isso para as ruas, acho possível não apenas reverter todas as crueldades impostas à classe trabalhadora nos últimos anos mas ainda conseguir muito mais direitos. Já que os partidos não estão conseguindo, acho até melhor, nós temos que pensar em uma forma de unir a população em suas demandas sociais e econômicas.

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