domingo, 5 de janeiro de 2020

Que o nazismo volte a ser vergonhoso

Os grandes genocídios contra as populações indígenas das Américas feitos por todos os colonizadores europeus foram milhares de vezes mais destrutivos, do ponto de vista humano, cultural e ecológico. Assim como foram também os cometidos nos continentes africano e asiático. Mas na época em que ocorreram, a maior parte da população que sobreviveu e se beneficiou não tinha consciência do que aconteceu. As informações eram totalmente controladas pelos impérios e igreja, quem ousasse pensar e contestar não teria vida longa. Foi o nazismo no seio da população até então considerada mais civilizada que mostrou quão destrutível pode ser o preconceito.

Na minha juventude sempre me questionei como pôde chegar àquele ponto. Como quem deveria dar exemplo permitiu tanta violência, tantas mortes, feridas que até hoje não cicatrizaram. O alívio que eu tinha era que aquilo não ocorreria novamente, então quando eu via aqueles grupos neonazistas imaginava que eram casos isolados. Quão grande foi meu susto quando descobri que o nazismo e o fascismo estavam ganhando força no mundo, inclusive no Brasil. Que muita gente está disposta a criar campo de concentração e câmara de gás para defender seu deus.

O medo me obrigou a estudar, ler muitos livros, ouvir opiniões de estudiosos, compreender o que causa esse fenômeno. No princípio tive receio, a violência pode ser muito dolorosa. Mas o efeito foi o contrário, a informação é essencial para combater o mal.

Neste ano que passou entendi que temos no Brasil há muito tempo e ainda vivo nosso genocídio principalmente contra populações indígenas, negras e pobres, assim como em vários outros países. A maior parte da população não tem consciência, esse é o objetivo do mercado. Imagine que impacto comercial teria nas vendas de baterias para carros elétricos quando as pessoas souberem que um governo sofreu golpe para que o minério em uma reserva indígena possa ser explorado.

Então meu desejo para 2020 é que cada vez mais você se informe, de preferência usando fontes independentes, chegando a conclusões próprias. Genocídios continuam acontecendo, a destruição da natureza chegou próxima a um nível de catástrofe, existem campos de concentração nos países mais ricos do mundo, inclusive para crianças. Que neste ano o nazismo e todas as outras formas de preconceito voltem a ser vergonhosos.

sábado, 16 de novembro de 2019

Graças a Deus!

Maria acordou cedo hoje, está feliz com o novo emprego. Estava difícil cuidar dos três filhos após o marido sair de casa. Agora que muitos bares e lojas estão fechando, a situação se complica para uma mulher negra com mais de 40 anos. Com a ajuda dos vizinhos pôde comprar a comida, mas se não fosse o bom pastor intercedendo por ela junto a Deus provavelmente algum filho adoeceria. Isso seria uma tragédia, já que está faltando médico e remédios no hospital.
Além do trabalho cotidiano de cozinhar para dez pessoas e cuidar de uma idosa aposentada, hoje foi um dia muito especial, pois como a Igreja Católica não tem recursos para manter os missionários, a patroa muito católica recebeu dois deles em sua casa. Maria fez tudo certinho, cuidou da casa e de todos. Até participou do terço à noite, algo difícil para ela que foi evangélica a vida toda. Estava nervosa, engoliu algumas frases, mas com fé foi até o fim, pois a patroa deu a ela a honra de rezar um dos mistérios diante dos missionários.
A noite, antes de dormir aproveitou para rezar novamente agradecendo. Ainda pensou "ah se José tivesse me deixado continuar na escola, eu não teria esquecido algumas partes da Avé Maria e Deus me ajudaria ainda mais. Mas não tem problemas, amanhã vou levar as crianças à praia e comprar picolé para todas. Se Deus continuar me abençoando uma delas vai arrumar emprego e cuidar de mim quando eu não puder mais trabalhar".


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Os brasileiros vão às ruas?


Os brasileiros vão às ruas?

Nas últimas semanas estamos vendo manifestações populares em vários países da América Latina. Pessoas foram às ruas no Chile, Equador, Peru, Venezuela, Honduras e Haiti e a semelhança que existe entre tais manifestações é o protesto contra sistemas políticos e econômicos que não representam seus interesses, por exemplo as políticas de austeridade que também influenciaram nas eleições da Argentina e do Uruguai. A cada dia fica mais difícil convencer as pessoas de que elas precisam se sacrificar cada vez mais para beneficiar uma parcela muito pequena da classe dominante, que na maior parte reside nos países mais ricos.

E no Brasil? Eu não conheço país onde a população tenha perdido mais diretos desde o golpe parlamentar de 2016. Veio uma reforma trabalhista com muitas perdas de direitos, principalmente para os trabalhadores de baixa renda, uma reforma da previdência que vai dificultar a aposentadoria de muitos trabalhadores formais e quase impossibilitar a aposentadoria da maioria dos trabalhadores informais, redução do salário mínimo, diminuição nos investimentos em saúde, cortes no orçamento da educação após já ter sido aprovado no ano anterior, entre outras perdas.

Então por que os brasileiros ainda não estão nas ruas? Acredito que algumas pessoas que foram às ruas de 2013 a 2016 ainda acreditam que suas demandas serão atendidas, não perceberam que a situação piorou. Essas pessoas foram capturadas pelo discurso da extrema-direita de combate a violência, fim da corrupção com consequente melhoria na qualidade de vida e geração de empregos através da adoção de políticas liberais. Não houve políticas de combate a violência, o que se vê na verdade é aumento de violência do governo contra os mais pobres, negros e indígenas, não houve aumento no número de empregos e as pessoas estão vendo pelos exemplos da América Latina que políticas liberais e de austeridade não são a solução e nem precisa falar em corrupção, pois esse deve ter estar sendo o governo mais corrupto da história do Brasil, o que não é pouco.

Acredito que uma hora vai surgir a gota d’água, que a população indignada vai às ruas espontaneamente como em 2013. Os partidos de esquerda e demais que são oposição ao governo, ou não estão conseguindo organizar protestos ou não estão querendo, talvez como estratégia de adiar protestos pensando nas eleições de governadores e vereadores no ano que vem. Caso seja isso, acho muito perigoso, vamos mais uma tez o risco de populistas apoiados pela mídia e grandes empresários assumirem o poder e continuar governando contra a população mais carente. Nós temos que pelo menos mostrar a essa parcela da população que a direita nunca estará ao lado dela.

Neste ano o povo já mostrou que tem vontade e capacidade de se organizar. As manifestações em defesa da educação foram enormes e abalaram o governo. Todos têm medo de protestos. Vejam como Bolsonaro sempre recua quando percebe que uma medida foi muito impopular. Vejam como a Lava Jato só conseguia tomar uma decisão baseada no apoio popular, daí o envolvimento da grande mídia e dos vazamentos de depoimentos de delação premiada premeditados.


Se conseguirmos unir as demandas populares das classes mais exploradas e levar isso para as ruas, acho possível não apenas reverter todas as crueldades impostas à classe trabalhadora nos últimos anos mas ainda conseguir muito mais direitos. Já que os partidos não estão conseguindo, acho até melhor, nós temos que pensar em uma forma de unir a população em suas demandas sociais e econômicas.

sábado, 26 de outubro de 2019

O estranho caso do médium espírita que não acredita na evolução

O estranho caso do médium espírita que não acredita na evolução

Me parece estranho o comportamento do médium Divaldo Franco, conhecido em todo o mundo pela propagação do espiritismo e pelas obras de caridade. Recentemente ele declarou à jornalista Ana Carolina Soares da Revista Veja São Paulo que não votou em 2018 mas que teria votado em Bolsonaro e que o atual presidente representa uma esperança para os brasileiros. Comentou também que Sérgio Moro fez justiça na prisão de Lula.

Não vejo problema em alguém se manifestar politicamente, aliás isso é preferível em comparação aos que não se manifestam. Divaldo fala com todo orgulho que tem coragem de expor a sua opinião. Mas então o que é estranho? É que na mesma reportagem Divaldo comenta que não acompanha política. Ora, como alguém que não acompanha política pode opinar sobre política?

Se Divaldo acompanhasse política e estudasse história perceberia que discursos de ódio contra etnias, gênero e orientação sexual provocaram e continuam a provocar muita violência. Além disso o médium sempre recomenda que as pessoas não mintam. Provavelmente nenhum político foi eleito até hoje sem mentir, mas porque a esperança para os brasileiros é o político que mais mentiu na campanha de 2018 e que todos os dias publica notícias falsas nas redes sociais e sempre mente muito nos discursos? Divaldo não percebeu ainda que Sérgio Moro foi desonesto em suas investigações e que sempre agiu em benefício próprio, esquecendo a justiça? Propagar violência e defender corrupção e mentiras não é o que Jesus pregou. Ah, mas Divaldo não acompanha política...

Todos temos obrigação de acompanhar e principalmente influenciar na política. Em outras palavras, transformar a sociedade através de nossas ações. No espiritismo compreendemos que existem seres superiores, mas compreendemos também que somos responsáveis por nossos atos, que se queremos um mundo melhor temos que transformá-lo, que nenhum ser superior vai fazer nosso trabalho e que seremos cobrados por nossas atitudes. Só é possível evolução assumindo responsabilidades, colhendo os frutos bons ou maus por nossas atitudes, que devem ser avaliadas para que novas atitudes sejam tomadas. 

Portanto, dando ou não opinião sobre política, Divaldo tem obrigação de entender o que acontece em seu país. Então o maior problema é que ele passa para seus seguidores que podemos confiar cegamente em um ser elevado, que resolverá nossos problemas. Isso pode ser qualquer coisa, menos o espiritismo criado por Allan Kardec.


Fonte:

https://vejasp.abril.com.br/cidades/medium-divaldo-franco/