Os brasileiros vão
às ruas?
Nas últimas
semanas estamos vendo manifestações populares em vários países da América
Latina. Pessoas foram às ruas no Chile, Equador, Peru, Venezuela, Honduras e
Haiti e a semelhança que existe entre tais manifestações é o protesto contra
sistemas políticos e econômicos que não representam seus interesses, por
exemplo as políticas de austeridade que também influenciaram nas eleições da
Argentina e do Uruguai. A cada dia fica mais difícil convencer as pessoas de
que elas precisam se sacrificar cada vez mais para beneficiar uma parcela muito
pequena da classe dominante, que na maior parte reside nos países mais ricos.
E no Brasil? Eu
não conheço país onde a população tenha perdido mais diretos desde o golpe parlamentar
de 2016. Veio uma reforma trabalhista com muitas perdas de direitos,
principalmente para os trabalhadores de baixa renda, uma reforma da previdência
que vai dificultar a aposentadoria de muitos trabalhadores formais e quase
impossibilitar a aposentadoria da maioria dos trabalhadores informais, redução
do salário mínimo, diminuição nos investimentos em saúde, cortes no orçamento
da educação após já ter sido aprovado no ano anterior, entre outras perdas.
Então por que os
brasileiros ainda não estão nas ruas? Acredito que algumas pessoas que foram às
ruas de 2013 a 2016 ainda acreditam que suas demandas serão atendidas, não
perceberam que a situação piorou. Essas pessoas foram capturadas pelo discurso
da extrema-direita de combate a violência, fim da corrupção com consequente
melhoria na qualidade de vida e geração de empregos através da adoção de
políticas liberais. Não houve políticas de combate a violência, o que se vê na
verdade é aumento de violência do governo contra os mais pobres, negros e
indígenas, não houve aumento no número de empregos e as pessoas estão vendo
pelos exemplos da América Latina que políticas liberais e de austeridade não
são a solução e nem precisa falar em corrupção, pois esse deve ter estar sendo
o governo mais corrupto da história do Brasil, o que não é pouco.
Acredito que uma hora vai surgir a gota d’água, que a população indignada vai às ruas espontaneamente
como em 2013. Os partidos de esquerda e demais que são oposição ao governo, ou
não estão conseguindo organizar protestos ou não estão querendo, talvez como
estratégia de adiar protestos pensando nas eleições de governadores e
vereadores no ano que vem. Caso seja isso, acho muito perigoso, vamos mais uma tez o
risco de populistas apoiados pela mídia e grandes empresários assumirem o poder
e continuar governando contra a população mais carente. Nós temos que pelo
menos mostrar a essa parcela da população que a direita nunca estará ao lado
dela.
Neste ano o povo
já mostrou que tem vontade e capacidade de se organizar. As manifestações em
defesa da educação foram enormes e abalaram o governo. Todos têm medo de
protestos. Vejam como Bolsonaro sempre recua quando percebe que uma medida foi
muito impopular. Vejam como a Lava Jato só conseguia tomar uma decisão baseada
no apoio popular, daí o envolvimento da grande mídia e dos vazamentos de
depoimentos de delação premiada premeditados.
Se conseguirmos
unir as demandas populares das classes mais exploradas e levar isso para as ruas, acho possível não apenas reverter todas as crueldades impostas à classe trabalhadora nos últimos anos mas ainda conseguir muito mais direitos. Já que os partidos não estão
conseguindo, acho até melhor, nós temos que pensar em uma forma de unir a população
em suas demandas sociais e econômicas.